Viagens sem tempo

O Martins Moniz é hoje um ponto de encontro não só de diferentes raças como uma porta para fazermos tributo ao fado. São inúmeros os nomes de fadistas inscritos nas paredes das casas onde nasceram ou cantaram assim como estão escarrapachadas as fotografias de caras melancólicas. Parece que tudo está alinhado. Se em tempos eram ruas e ruelas cheias de vida, hoje são lugares, ainda que recuperados, que cheiram a abandono, a inquietação, a tristeza. Continuamos a subir ao toque da campainha do eléctrico 28 – para sairmos do meio do caminho – pois ele é o dono não só dos carris como de toda a estrada. É curioso ver os sinais do tempo e o ajuste dos novos moradores que teimam em indicar, também, os serviços na sua língua materna.
A chegada à Graça, um bairro grandioso, não só pelos seus miradouros como pela sua história associada às vilas operárias, é curioso o contraste entre o cosmopolitismo e o lado provinciano. A desfrutar das mais belas vistas da cidade vemos pessoas sentadas ou de pé, ouvimos vários idiomas e sentimos o deslumbramento desta gente que atravessou oceanos ou apenas subiu a calçada para sentir Lisboa, menina e moça!IMG_0888

 

 

 

 

 

Quando se observa a vida própria de uma das vilas do bairro – a Bertha – apercebemo-nos dos pormenores artísticos e urbanísticos com que elas foram idealizadas e construídas. Tinham um fim: aglutinar pessoas. Parece que o tempo ali parou e o estilo também. Apesar dos sons dos carros que entram vagarosamente na rua principal, cujas portas se abrem e de onde saem pessoas com compras em sacos, sente-se os olhares reveladores de arrufos entre casais e as mais variadas dinâmicas familiares.
Vindos do monte da Graça e ao virar da esquina entramos na mais famosa tasca de fado vadio contemporânea – A tasca do Jaime. É um lugar de encontros de várias culturas em redor de mesas cheias de petiscos e jarros de vinho que se vão esvaziando ao som de uma fadista vadia vinda de um outro lugar com um sotaque que mais soa a espanhol. Afinal não é espanhola, é holandesa! Que estranha sensação esta, de ouvir fado com sotaque! Primeiro estranha-se e depois entranha-se. Parece que tudo está controlado, desenhado à medida e acertado com os sons daquela guitarra portuguesa que dá o toque de partida para estas viagens sem tempo definido.

 

 

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